O Elefante Branco

Com um investimento inicial de 29.7 milhões de euros, a Marina do Lugar de Baixo começou a ser construída em 2003 e o projeto inicial previa uma capacidade para 297 embarcações entre os oito e os 25 metros. Mais de um ano depois, e ainda em 2014, a Marina do Lugar de Baixo foi inaugurada já com um custo adicional de mais 21 milhões de euros, isto é, quase o dobro. 

Conhecida sobejamente do povo da Ponta de Sol como uma zona de mar violenta, a Marina foi destruída logo nos primeiros sudoestes de inverno. 

Em 2008, o Governo Regional tenta despachar o Elefante Branco para o Grupo Pestana. O negócio milagroso incluía a constituição de uma nova empresa na qual se injetaria 20 milhões de euros na aquisição de terrenos, em que a Ponta Oeste ficaria com 26% e o Grupo Pestana com 74%. Felizmente, ficou tudo em águas de bacalhau. 

Em 2011, João Jardim, colocado debaixo de fogo perante o mau investimento da Marina, afirmou em alto e bom som que “tenho sido criticado pelos tontos desta terra, quando sou criticado pelos tontos, tenho muito prazer nisso”

E teimosamente, o Governo continuou a investir na Marina, e gastou mais dois milhões nas piscinas, num pequeno campo de futebol sintético que fazia parte de uma zona de lazer e diversão integradas no local. E isto sem esquecer os 8,6 milhões de euros que a Secretaria do Equipamento Social gastou na consolidação da escarpa. 

Na altura, e em visita às obras de remodelação, Alberto João Jardim teceu duras críticas ao PS por estar a anunciar a necessidade de um Hospital Novo para a Madeira “acho que a população da Ponta do Sol deve agradecer ao PS ter tentado boicotar o que hoje está aqui” acusando-os de serem uns “vigaristas a anunciar hospitais”. E não se contendo nas críticas ao PS adiantou “anda aí a direita conservadora a prometer um hospital, não vejo ninguém na opinião pública a querer um hospital, porque não é um edifício novo que vai garantir uma melhor prestação de cuidados de saúde à população”

Em 2012, o vice-presidente do XI Governo Regional e mentor da criação das Sociedades de Desenvolvimento, João Cunha e Silva, admitiu, no nosso entender tarde de mais, que a marina tinha sido um erro político. 

Em 2017, uma Comissão de Inquérito na Assembleia Regional concluiu, muitos meses depois, que não houve responsabilidades políticas, técnicas, ou financeiras e que afinal a culpa foi de uma bóia. 

Consta na justificação que os tais estudos de Avaliação do Impacto Hidrodinâmico foram efetuados com dados de um ondógrafo situado no Funchal e a falha foi imputada aos projetistas. Para salvar a cara, a Sociedade Ponta Oeste moveu uma ação cível contra os projetistas exigindo uma indemnização de vinte milhões de euros. É para rir?

Em 2018 o Tribunal de Contas concluiu que os investimentos de 224.4 milhões de euros da Ponta Oeste geraram uns míseros 766 mil euros anuais, e que a dívida dos clientes remontava, em 31 de Dezembro de 2015, a cerca de 2.1 milhões de euros, dos quais apenas se recuperou 67 mil euros. 

Sem culpados, a Marina foi sucessivamente destruída pela ondas, até que, em 2015, o Governo Regional de Miguel Albuquerque, num raro momento de lucidez, decidiu abandonar o projeto. 

Mesmo considerada irrecuperável, a Marina do Lugar de Baixo além dos 29.1 milhões absorveu ainda mais 80 milhões de euros, que no total daria para cobrir o investimento da Região no Novo Hospital. 

E tudo o mar levou.



“É sempre fácil encontrar um álibi para justificar a negligência de estudos mais sérios e exigentes.”

Bernhard Haring
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